FABRIS, Annateresa. Modernidade e vanguarda: o caso brasileiro
FABRIS, A.. Modernidade e Vanguarda: O Caso Brasileiro. In: FABRIS, Annateresa. (Org.). Modernidade e modernismo no Brasil. CAMPINAS: MERCADO DE LETRAS, 1994, v. , p. 9-25.
Não é possível operar uma ideia única de modernidade, por isso ela opta por analisar alguns discursos.
Clement Greenber → tipificou o discurso da autorreferencialidade da arte moderna → uso dos métodos de uma disciplina para criticá-la e não subvertê-la
"A ideia hegeliana da morte da arte ecoa nas concepções de Greenberg, que percebe uma única saída para evitar a crise anunciada com o advento de uma sociedade de massa: a autolimitação imposta, o fechamento dentro dos próprios limites, a concentração na natureza intrínseca do meio. Desse modo, a arte moderna recorta uma área de competência própria que não se confunde com qualquer outra expressão artística, pois suas características são a busca da superfície plana, a preocupação com o formato do suporte e as qualidades dos pigmentos. (...) Ao privilegiar o ótico em detrimento do tátil, a pintura moderna elude toda implicação literária, evita o conteúdo, ou melhor, dissolve-o na forma para que a obra "não possa ser reduzida a outra coisa que não seja ela própria" p. 10
Greenberg nega que a arte moderna rompa com o passado, e vê a transformação das possibilidades empíricas como seu único aspecto subversivo.
Fabris critica que no afã de definir a arte moderna, Greenberg excluiu autores que eram excêntricos em relação a ela.
"É pensando na arte como um processo de autoanálise e no impressionismo como uma exploração de possibilidades pictóricas muito além da verossimilhança que tal antecedência pode ser postulada." p. 11
Necessidade de se construir outra língua para a arte moderna (Duchamp)
Joseph Kosuth → Toda arte pós Duchamp é conceitual (em natureza) porque a arte só existe conceitualmente
Fabris ressalta que Kosuth e Greenberg formulam sua teoria a partir do interior da arte, mas não podemos esquecer as relações da mesma com a sociedade.
Para Joan Borrell, Gustave Courbet seria o inventor da arte moderna porque dirigiu-se diretamente ao público, ignorando a academia.
Courbet não ignorava o papel da concorrência e a necessidade da publicidade ao negar a academia. Dirigir a arte diretamente ao público faz como que ela entre no fluxo de mercadoria → importância do marchand como instância qualificadora que assegura o trânsito do artista e da obra pelo mercado.
"O marco temporal proposto por Borrell coincide com aquele fixado por Andreas Huyssen, que localiza na segunda metade do século XIX o começo daquele processo de "mercantilização da cultura" ao qual a arte não permanece imune. Paralelamente à mercantilização da cultura, ocorre a mercantilização do tempo e do espaço, dos objetos e do corpo humano" p. 12
Huyssen identifica nas obras de arte modernas um fascínio pela cultura de massa.
"A ênfase dada a dois tipos de discursos contrapostos, um de natureza estética, o outro de teor sociocultural, não é gratuita quando se pensa nos elementos constitutivos da modernidade e do modernismo no Brasil. O discurso estético, pelo menos no âmbito da expressão plástica, revela-se redutor quando confrontado com nossa peculiaridade artística, pois poderia nos levar a concluir apressadamente que a arte brasileira só se tornou moderna na década de 1950, no momento em que se articulou um projeto construtivo graças às vertentes concretas e neoconcretas." p. 13→ tese de Ronaldo Brito
A arte moderna, para Brito, começa com a negação do espaço perspético e começa com uma interrogação da natureza da relação quadro-realidade. → porém ele não explica as razões disso, o que não pode ser ignorado
Brito define a Semana de Arte Moderna como um desejo de ser moderno, portanto uma modernidade não efetiva. Ele vê a busca da identidade nacional como o traço distintivo da vanguarda brasileira. →Brito: "Paradoxal modernidade a de projetar para o futuro o que tentava resgatar no passado. Enquanto as vanguardas europeias se empenhavam em dissolver identidades e derrubar os ícones da tradição, a vanguarda brasileira se esforçava para assumir as condições locais, caracterizá-las, positivá-las, enfim. Este era o nosso Ser moderno."
O olhar modernista brasileiro possuía uma entidade híbrida que misturava diversos elementos e praticamente impunha o primado do tema (brasilidade), algo repudiado pela modernidade europeia.
A partir do fim do XIX → processo de modernização do Brasil
Estudos recentes tentam pensar a modernidade cultural para além das categorias ortodoxas oriundas do modelo europeu.
"A caricatura brasileira, do último quartel do século XIX até as primeiras décadas do século XX, contrapõe-se à convenção acadêmica, abandonando seus cânones, negando suas hierarquias, propondo novos motivos å atenção do artista." p. 15
A caricatura insere o desenho dentro do processo geral da sociedade.
Voltolino → percursor de caricaturas (Belluzzo, 1991)
Flora Sussekind busca definir a literatura "pré-modernista" a partir de suas relações com a paisagem tecnoindustrial em formação.
A análise da modernidade não pode ignorar o confronto com a paisagem urbana.
Não faz sentido o termo pré-modernismo, é modernismo!
"Embora modernidade e vanguarda não sejam sinônimos, a vanguarda, no entanto, não pode ser pensada fora do quadro de uma sociedade moderna politica e economicamente. A vanguarda é uma função possível da modernidade do século XX e seu trago definidor deve ser buscado na consciência que o artista tem do próprio papel histórico." p. 18
Descontente com a "instituição arte" (formalizada no fim do XVIII) o artista de vanguarda não contesta as linguagens, mas a estrutura na qual a arte é produzida.→ critica como aparato e como _ideologia segregadora que separa a produção artística da práxis vital em nome da autonomia
Vanguarda → Crítica da estrutura social em que a arte se insere, que privilegia um sistema artístico e marginaliza outro (Peter Burger). Se é desejo da vanguarda não apenas produzir arte, mas determinar também sua evolução, seus instrumentos serão artísticos e linguísticos ao mesmo tempo. p. 19
A vanguarda se apropria do mercado porque foi excluída do circuito oficial. → EX: publicam seu manifesto em jornais
O futurismo inclusive utiliza os meios de comunicação em massa para se propagar.
Na vanguarda, práxis e teoria não se separam.
"A ênfase dada à ação e ao comportamento e não às realizações formais da vanguarda explica-se por um fenômeno já salientado antes: a arte moderna produzida no Brasil, pelo menos no caso das artes plásticas, é moderna numa acepção peculiar e local, mas não se pensada no âmbito das propostas europeias." p. 20
É impossível pensar uma expressão moderna sem crítica moderna, mas isso acontece no Brasil (ex: episódio de Anita Malfatti e Monteiro Lobato).
"modernistas consigam estruturar uma ação de vanguarda, vazada no exemplo futurista, do qual se aceita a plataforma ativista, mas não a proposta estético-artística, radical demais para o grupo de São Paulo."
Modernistas estavam descontentes com o país dominado pelo realismo parnasiano, regionalista e acadêmica.
Ignorando o RJ e focando em São Paulo, eles utilizam o jornal para conquista espaço público, usando explanação serena ou ataques e ironia, de acordo com o objetivo → O Correio Paulistano e o Jornal do comércio
Momentos germinais do modernismo → desejo de estruturar uma plataforma teórica onde o artista apresenta e discute sua própria poética. Algo inexistente nas artes plásticas, que contava com o crítico, mas consistente na literatura.
Na Semana de Arte Moderna, a exceção de Malfatti, os artistas davam passos ainda hesitantes, obras embrionárias cuja presença era mais ideológica que plástica. Porém, elas são percebidas como elemento de distúrbio pelo público e crítica, sendo a apresentação inusual, e não as obras, o traço vanguardista.
"O que importava era desafiar um gosto consolidado, anunciar o porvir a partir de um presente inquieto e interrogador, estratégia que, sem dúvida, incomoda, como demonstram a vaia reservada aos escritores no segundo festival e a polêmica que toma conta dos jornais durante o evento e, em alguns casos, ainda um més mais tarde. O que deve ser sublinhado é que tais manifestações, embora não modernas em termos puristas, são percebidas como modernas pelo ambiente ao qual se dirigem" p. 22
→ Denunciaram a presença do passado na produção cultural de uma cidade materialmente moderna
Jean Clair → a vanguarda não é apenas um movimento prospectivo, mas também uma atitude retrospectiva, que olha para trás para evitar ameaças.
"Não podendo ainda dispor de obras modernas nos albores dos anos 1920, o grupo inovador não deixa, no entanto, de lançar mão de uma estratégia moderna, tipificada numa série de gestos e atitudes próprios da vanguarda." p. 23
A vanguarda foi "afirmação de nossa possibilidade de sermos modernos, numa percepção utópica e critica do próprio tempo e da própria cidade, transformada em paradigma para todo o Brasil." p. 24
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